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West Coast.

#8 Amazing and Distressing

Patrícia Mota
Patrícia Mota

Quando se muda seja para onde for custa sempre.

Mesmo que seja para melhor, mesmo que seja transitório, mesmo que seja para longe ou para perto, de casa, dos nossos, de tudo. Custa, a mudança. Implica sempre sair da zona que era confortável e adaptar-se, a tudo o que é novo. E começo mesmo a acreditar que o estado de espirito de quem muda de um sítio para o outro é tudo menos estável.

Ora em cima, ora em baixo. Ora Awesome, ora Distressing. Ora Incrível ora Horrível.

Não há meio termo, pelo menos para já.

Talvez quando a mudança seja ocupada pela adaptação a tudo e mais alguma coisa dê lugar a um estado de espírito mais sereno. Mas custa-me entender como é possível a serenidade à falta que nos faz tudo o que nos é imperioso. Se calhar não há propriamente muita serenidade nos estados de espírito dos migrantes, expats, ou como se chamem os intercambios de pessoas seja lá porque motivo for.

Nestes dias com menos notícias conseguimos essas ambiguidades todas, várias vezes. Ao dia, devo dizer.

No que diz respeito ao lá em cima, awesome e incrível têm sido as experiências mais bonitas vividas numa equipa de 5 e mais um cão, doida e doce nas mesmas proporções.

Nos programas fora de roteiros turísticos, nas pessoas incríveis e interessantíssimas que já conhecemos, nos eventos que temos tido a sorte de ser incluídos, nas superações diárias dos nossos filhos, e nos sucessos profissionais que vamos vivendo, na gestão de emoções ao visitar sítios que mexem connosco, nas experimentações desta vida e desta cultura tão diferentes da nossa, nas aventuras estilo team building que estamos a viver em família.

A certeza que decidimos bem, que a vida deve ser vivida em pleno com a intuição correspondente mesmo que arrepie, e que esta roda viva toda está a valer mesmo a pena. Impossível de experienciar, de aprender nos livros, de viver como turista. Só como local, imergido na comunidade, disponível com tempo e com toda a curiosidade para aprender disto tudo.

E é mesmo maravilhoso. Difícil de descrever.

Nos baixos, no distressing no horrível estão as saudades, o lidar com situações que acontecem de forma inesperada e pouco facilitadora da nossa logística, e como sempre uma catadupa de situações ao mesmo tempo, no contar apenas com a equipa de 5 em campo para dar a volta, e sobretudo na nossa ausência.

Que os nossos estejam longe e que nos custe, já antevíamos.

Mas em situações limite e anti-natura, não estar perto para amparar os nossos é horrível. E apesar de todos os meios facilitadores de comunicação, os abraços e os colos que não acontecem nos momentos limite custam de engolir.

O Rodrigo adora os primos. E os tios. E a familia inteira.

Viver em Lisboa tem um preço de por vezes não chegar a tempo de despedidas, e de celebrações únicas, mas ainda assim é uma distância confortável de gerir, ainda que por vezes socorridos de anti-histamínicos para atravessar penínsulas com a equipa toda em tempo recorde, e apenas com paragens essenciais.

Desta vez com a distância enorme, não foi possível chegar perto para partilhar e amparar a angustia da familia na despedida do menino campeão de olhos grandes e sorriso aberto. Foi mesmo horrível. E difícil de descrever.

Desde a distância espero que sintam o nosso colo e amparo nesta situação tão desamparada. Fomos mesmo todos privilegiados que pudemos assistir  de perto a tanto amor. E ao sorriso desse querido menino. E tentamos desde aqui agarrar-nos também a esse privilégio.

Na rotina coma vida a acontecer, uma destas 5ª feiras fomos pintar abóboras com os mais novos a um parque, e começamos a estranhar a Maria estar a demorar tanto a chegar da escola.

Fomos ao seu encontro e quando a começamos a ver ao longe vinha aflita a chorar e com a cara cheia de sangue. Não percebemos logo se lhe tinham batido, se tinha ido contra alguma coisa, se tinha os dentes todos, e o nariz, enfim... sangue por todo o lado e uma aflição imensa.

O Matias trazia na mochila uns boxers usados e foi o que usamos para tentar parar o sangue. Estávamos de facto aflitos!

Percebemos depois que aterrou de nariz na esquina de um lancil depois de ter voado da sua trotinete com o peso da mochila a agravar a inércia da queda.

Deixei uma fortuna e meia na farmácia, trouxe desde antibiótico em pomada a placas que hidrogel especificamente para queimaduras e tudo o que me pareceu adequado que me recomendaram, e parece que está a correr bem.

Na 5ª feira seguinte a regressar da escola com os 3 em duas bicicletas, numa passadeira com o sinal verde para nós, "só" tínhamos de atravessar uma 14 faixas, e não sei como, vejo-a voar outra vez, e esbardalhar-se ao comprido completamente embrulhada na bicicleta.

Eu aflita a tentar chegar ao pé dela, com os dois mais novos montados no meu veículo, demorei uns segundos mais, e foi o suficiente para um ciclista ter chegado antes a tentar libertar a Maria da sua bicicleta.

Entre o susto e a dor que tinha, gritou tanto que o bom do ciclista que não percebia português, nem o que dizíamos uns aos outros comunicou-nos que ia chamar o 911.

Respondi que não era preciso, que nos deixasse sossegadinhas, e que em casa logo víamos o que fazer.

Apesar das escoriações percebi que não tinha nada partido, e foi só chegar a casa com os 2 mais pequeninos assustados, uma coxa e duas bicicletas.

O Rodrigo nesse momento no centro de LA em hora de ponta. Pois claro que tenho mais 27 cabelos brancos e 3 rugas.

Pelo sim, pelo não, esta próxima 5ª feira vamos seguir o conselho da tia Lucía, e não há mais veículos para a Mimi, que andar a pé faz muito bem.

Para desanuviar, inscrevemo-nos na organização do "Carnival" da escola da Cuca.

Significa festarola rija, e não é em fevereiro, é sempre que se quiser.

Assim que chegámos concluímos que a tradução exacta deve ser "espécie de feira popular que abusou de esteróides".

Tudo em grande, desde os insufláveis aos concursos de rifas, passando pela banca de prémios e jogos tradicionais. Absolutamente incrível.

A Maria como voluntária esteve na zona das comidas, e assegurou que os manos estivessem sempre bem alimentados, o que para eles foi a loucura, os pequenos a pedir coisas à mana crescida, e a mana crescida a conseguir providenciar almoço e gulodices aos manos.

No fim do Carnival pelo bom trabalho ao longo do dia, recebeu mais tikets para gastar onde quisesse, e ainda conseguiu aproveitar as brincadeiras.

Este evento é organizado pela associação de pais com a finalidade de fund raiser para a escola, e todos os trabalhadores são voluntários (pais, filhos e professores), por turnos.

Uma organização brilhante, e que no fim, depois dos meninos conseguirem o maior número de tikets possíveis, trocavam por prémios. também oferecidos por voluntários e instituições parceiras.

Chegamos a casa moídos apesar de não termos andado nos insufláveis, e o Matias adormeceu sem jantar.

Entretanto começaram os preparativos para o Halloween, e não gostei nada de sacar sementes de abóbora, mas o resultado foi cãibras na mão direita, 3 calos e uns manos todos contentes!

Como apesar de se sentir verão supostamente é outono, decidimos aconselhar-nos com os locais e visitar uma quinta perto (1h40 de carro) para fazer um picnic e apanhar maçãs.

Fazia tempo de outono nesse sítio, e fomos prevenidos e bem agasalhados, e a constatar que na California temos mesmo quase tudo. Em termos de estações do ano, de paisagens e de experiências.

Foi tão, mas tão gira a experiência que ficámos com vontade de repetir.

Apanhámos dois sacos de maçãs, andámos de tractor e vimos abóboras a crescer à espera de ser colhidas.

Levámos "patanisca a fingir que era de bacalhau" para o pic-nic, as maçãs são uma delícia, mas ao preço de bifinho do lombo, e cada uma que comemos temos o cuidado de a saborear adequadamente.

Já recomendámos o Los Rios Rancho a tudo que é conhecido. Foi mesmo top.

Entretanto a agenda social dos filhos começa a ser complicada de gerir, e é com toda a emoção que nos desdobramos para chegar a tudo o que são convidados.

A interacção com amigos que já fizeram é das coisas mais bonitas de assistir, e os meninos conseguiram integrar-se, para já, muito bem!

Que assim continue...

O Rodrigo entretanto foi crescer para São Francisco e adorou a experiência.

Nessa altura assaltou-me a aflição do fim do dia, para qualquer macacoa que possa acontecer, sem um de nós por perto.

Vinha a conduzir em silêncio de volta do aeroporto, no escuro das 4 da manhã, no meio dos outros veículos que também deram forte nos esteróides, e nas mil faixas para cada lado, com o Matias a dormir no banco de trás, e as meninas a dormir em casa ao cuidado... da Mel!... e só me vinham aflições à vista.

Cheguei a casa e pus o número da Jenny no tlm da Maria.

Partilhei as minhas aflições com a Jenny, porque dizer aflições alto faz com que as mesmas não aconteçam, ou prefiro acreditar neste pensamento mágico.

Acho que assustei a Jenny, que me pediu logo o número do Rodrigo e da Maria para o seu tlm.

E assim fiz! Contacto de emergência partilhado.

Continuo em modo mãe sherpa, mas prefiro mesmo não me sentir a única adulta responsável, a subir este Everest.

Respirei fundo quando fui buscar o Rodrigo de volta do aeroporto, e dormi mais serena nessa noite.

A California tem mesmo quase tudo.

Faltam cá vocês.

Um beijinho nosso.


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